13 de outubro de 2013

100 anos de Vinícius de Moraes

Blog Ser Flamengo


No próximo sábado, dia 19, Vinícius de Moraes completaria 100 anos se estivesse vivo. A data merece e vem sendo lembrada. Aqui mesmo no blog criei uma série (Vinícius 100 anos) com treze poesias dele declamadas por mim que venho postando mensalmente.

Posso afirmar que numa época da minha vida a obra de Vinícius foi minha companheira. Diante de minha solidão, a sua poesia e sua música me faziam companhia. Quanto já não criei tendo como inspiração Vinícius de Moraes?

Jamais ninguém cantou e versou o amor tão bem como Vinícius. A julgar pelo homem apaixonado pelas mulheres e pela vida, Vinícius nos brindou com lindos sonetos, poesias e canções históricas. “Para viver um grande amor”, “Poema aos olhos da amada”, “Soneto de separação”, “Soneto do amor total”, “Pela luz dos olhos teus”... São tantas e tantas!

Vinícius sempre camaleônico ia além do amor com poesias como “Pátria minha”, “Balada do mangue”, “A hora íntima”, “Poética I”, “Soneto de intimidade”... Criou a bossa nova, criou os “Afro-Sambas” com Baden e foi assim a vida toda, sempre se reiventando.

Pra mim Vinícius é tudo de perfeito na música e na poesia. Uma referência impar que influencia o que escrevo e a minha vida. O mundo seria mais vazio sem que Vinícius não tivesse passado por ele. Passou, fez história e se tornou imortal.

Que no dia 19 possamos ouvir bossa nova, “Afro-Sambas”, declamar poesias e sonetos de Vinícius em reverência ao que ele representa na nossa cultura popular. Que Ipanema amanheça resplandecente, que a Rua Vinícius de Moraes no bairro esteja mais iluminada e se eu bebesse, me embriagaria de Whiski, uma garrafa inteira nesse dia em memória de quem batizou a bebida como o “melhor amigo do homem”, o “cão engarrafado”.

Viva a obra de Vinícius! Viva o legado deixado por Vinícius! Viva Vinícius!

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Hora íntima

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Vinícius de Moraes

Rio, 1950

Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio, 1998, página 455.


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