14 de junho de 2013

O manifesto da verdade na terra da mentira - Sobre o novo livro de Lobão

Poeta Tulio Rodrigues


O Brasil é o país dos rótulos seja a quem agrade o sistema ou não. Recentemente Lobão lançou o seu livro “Manifesto do nada na terra do nunca” (Lançamento do livro de Lobão no Rio de Janeiro) e ganhou mais rótulos “Ex-roqueiro” e “Propagandista da oposição” foram alguns. Discordo com os rótulos. Primeiro porque mais do que nunca Lobão vem fazendo seus shows pelo Brasil inteiro. Pelo que acompanho em seu Twitter, Lobão vem compondo novas músicas e sobre Lobão ser “propagandista da oposição” chega a ser uma ofensa, pois Lobão não é hoje oposição ao governo defendendo partidos que se dizem oposição, mas sim em prol dos nossos direitos como cidadão.

Um pouco antes do lançamento do livro, li uma matéria na “Folha de São Paulo” em que Lobão chama a presidente de torturadora, Roberto Carlos de Múmia e Mano Brown de braço armado do PT. Claro que a entrevista teve repercussão e Lobão se defendeu pedindo que lessem o seu livro. Já iria fazê-lo antes, sou fã do Lobão, mas confesso que a matéria aguçou a minha vontade de me debruçar sobre o seu manifesto.

Poeta Tulio Rodrigues
No lançamento do seu livro, Lobão foi de uma gentileza ímpar com os presentes bem como a sua esposa Regina e fico pensando como não gostar dele. Comprei o livro e já voltei lendo no caminho para casa. 

Lobão abre o livro com o poema que podemos chamar de épico é o “Aquarela do Brasil” 2.0 cujos versos são de uma verdade triste da nossa sociedade, da nossa condição política e intelectual. São vários tapas na cara que devem ser ditos e não são. Em seguida inicia o capítulo 1, “A terra do nunca” com a frase – Amamos a pobreza –. Uma crítica a quem diz que o povo brasileiro adora ser pobre, um povo legal, malandro e essas coisas que lemos e ouvimos do tipo “Lata d’água na cabeça/ Lá vai Maria subindo o morro (...)”. A maior mentira do mundo. Pobre gosta de luxo, tanto que toda semana joga na loteria. Lobão tem razão! As críticas ao nosso cenário artístico feito por ele no livro são salutares e devem ser levadas em consideração. Lobão não diz que Roberto Carlos é uma múmia, pelo contrário, fala da influência que Roberto Carlos ainda na Jovem Guarda teve em sua carreira. A única crítica é com relação ao que Roberto Carlos se transformou nos últimos anos. Diga-me, quando passa o especial dele na Rede Globo você não sabe o que ele vai cantar?

Deixo claro que não concordo com tudo que Lobão fala, mas posso dizer que endosso 90% do que ele diz e entendo as suas razões com o que não concordo. Devemos entender que em questão e gosto musical, a escolha é pessoal. Lobão pode criticar e dizer que não gosta do que ele quiser. Devemos respeitar a sua opinião. Ponto!

No capítulo sobre a presidente “Vamos assassinar a presidenta da República?” Lobão nos leva a uma reflexão sobre o passado de Dilma, seus discursos contraditórios e a “Comissão da verdade”. Lobão não usa a expressão “torturadora” para a nossa presidente em nenhum momento! Lobão também fala sobre a sua relação com o PT. Ele esteve no coração do partido fazendo campanha, participando de comícios e até indo a TV pedindo votos. Será que ele mudaria de opinião à toa? Será que não há motivos para isso e para o que Lobão defende hoje? O PT não foi só uma decepção para o Lobão ou será que o Mensalão não existiu? Será que Lula não sabia de nada?

O que Lobão fez ao expor de forma concisa e inteligente os motivos que o levaram a se afastar do partido e seus partidários mostra que Lobão não é qualquer um. Ou é qualquer homem que tem coragem de voltar atrás e dizer: – Gente, realmente não é aquilo que pensei, estava errado! – Não amigos, não é qualquer um que tem culhão para tal. Ainda mais se tratando de uma pessoa pública. Nesses pontos concordo com o artigo do economista Rodrigo Constantino, no Globo e publicado também na Veja, no blog de Reinaldo Azevedo: “Mais Lobão e menos Chico Buarque”. As pessoas vão estranhar isso de mim, pois sou fã da obra do Chico, mas prefiro explicar numa outra oportunidade.

O livro é muito mais abrangente sobre o PT, a política nacional, sobre a Lei Rouanet que não discordo uma linha de Lobão e também sobre o rock nacional. Há dois capítulos simplesmente sensacionais que são: “Um pequeno mergulho no mundo sertanejo universitário (acidentalmente gonzo)” e “Viagem ao coração do Brasil”. No primeiro, Lobão se depara com questões inusitadas num lugar que ele não estaria com pessoas que ele não se relacionaria se fosse por sua vontade. No segundo é sobre uma viagem em terras Amazônicas com situações complicadas e curiosas. Há ainda a “Carta aberta de Lobão a Oswald de Andrade” que foi o mote do livro, no qual Lobão crítica e faz uma analogia da sociedade atual com o “Movimento antropofágico”.

O programa "A liga" sobre o sertanejo universitário você pode ver aqui:



Sobre o programa "A liga" em que Lobão vai ao garimpo nas terras Amazônicas, você pode encontrar no blog "Tripa Virada" de Marco Ribeiro que tem uma belíssima crônica do livro: MANIFESTO DO NADA NA TERRA DO NUNCA.

Fica a minha sugestão ao Lobão. Talvez o livro devesse se chamar “O manifesto da verdade na terra da mentira”. Precisamos de Lobão, um artista de conteúdo e que acredito que faça o papel de um formador de opinião com uma legião de fãs. Há muito vazio e nulidade nos artistas do país que preferem ficar em cima do muro. Ainda bem que Lobão não é assim! Vale ressaltar que a sua obra musical e literária foi uma grande descoberta. Leiam o livro e vejam se estou mentindo. A mídia que quer nos alienar não tem razão!

“(..) O Brasil dos estupros consentidos na surdina,
dos superfaturamentos encarados como rotina,
dos desabamentos e enchentes de hora marcada,
dos hospitais públicos em abandono genocida,
dos subsídios da Cultura e artistas consagrados,
dos aeroportos em frangalhos, usuários indigentes,
dos políticos grosseiros, como sempre, subornados,
de cabelo acaju e seus salários indecentes,
da educação sucateada pelo Estado
em sua paralisia ideológica, omissa e incompetente. (...)

Lobão.
Trecho do prólogo – Poema “Aquarela do Brasil 2.0”
Livro “Manifesto do nada na terra do nunca”.


Twitter: @PoetaTulio